“Para onde deve o homem dirigir o seu pensamento para não ser considerado louco?”
Ah, que felicidade é fechar a última página de um livro. Se for desses que deixam uma pequena cicatriz na alma, então. E Jerusalém (Ed. Cia das Letras, 2006), do angolano/português Gonçalo M. Tavares é assim. Uma boa história, contada sem linearidade. Forte, que aborda tantos temas caros como loucura, violência, morte, prostituição. Parece um filme. Daqueles onde você conhece alguns personagens e certas atrocidades nas suas vidas e depois sai da sala sem querer falar nada, digerindo.
“Por onde tens andado? – perguntou ela a Ernst. Que pergunta ao mesmo tempo cautelosa e violenta: ‘Por onde tens andado? Que ruas frequentas, que casas?’ Pergunta moral, e não geográfica.”
- Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares
- O autor, Gonçalo M. Tavares. Foto: Teresa Sá
Confesso que o título me fez adiar um pouco a leitura, desde que o ganhei de presente. Mas a obra não tem diretamente nada a ver com religião. Engraçado foi o que Saramago disse: “Um grande livro que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”. E é verdade.
“Olheiras quase de animal nocturno eram a marca essencial daquele rosto. Nenhuma imperfeição poderia impor aos outros maior respeito do que aqueles olhos, embaixo dos quais estava uma pele dobrada várias vezes sobre si própria. (…) Todo o restante do corpo de Hinnerk era amorfo e não despertava curiosidade: ele ‘era’ os seus olhos e aquela pele.”
Descobri que Jerusalém faz parte de uma tetralogia chamada O Reino - e ainda da série dos “livros pretos”, nomeada assim pelo autor, pois são “feitos para desencantar” – , cujos outros três são Um homem: Klaus Klump (2007), A máquina de Joseph Walser (2007) e o último Aprender a rezar na era da técnica(2008). Com incríveis mais de 15 livros publicados em três anos, Gonçalo ganhou prêmios como o Ler/Millenium 2004, o José Saramago 2005 e o Portugal Telecom 2007.
“Mais do que na sua saia minúscula e na camisa amplamente decotada, Hanna confiava na cor roxa das pálpebras que, associadas a um olhar fundamental, perturbariam, mais uma noite, estava ela certa, os homens de que precisava.”
Duas coisas bem legais para quem quiser saber mais: sobre Jerusalém, uma crítica da professora da UFRJ, Ana Beatriz, explorando a memória do holocausto no livro, e, sobre Gonçalo M. Tavares, uma entrevista numa Entre Livros passada.
Foto: do blog do autor, tirada por Teresa Sá





Márcia Lira. Leitora, blogueira, digital planner, jornalista, viciada em séries e em cinema, não vive sem gente.


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