Pode me chamar de Admirável Mundo Novo

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, fala de um mundo que eu espero nunca ver. Na narrativa, os livros são todos queimados e, para preservá-los, as pessoas escolhem um e o decoram palavra por palavra, passando a atender pelo título da obra. Então o Alessandro Martins, do Livros e Afins, propôs uma blogagem coletiva para hoje: se você fosse um livro em Fahrenheit 451, qual seria?
Não precisei pensar muito sobre o assunto para concluir que não deixaria o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, se extinguir do mundo. Sim, eu o decoraria palavra por palavra (ainda bem que é uma situação fictícia, pois minha memória é péssima!). É uma daquelas obras que você pensa: putz, não poderia passar pela vida sem tê-la lido.
Escrita em 1932, a obra de Huxley descreve uma sociedade no futuro onde as pessoas vivem em castas pré-determinadas na fecundação, pois elas são condicionadas biologicamente. No nascimento, elas também recebem intruções psicológicas e há a droga soma, cujo uso é indicado sempre que surgirem as totalmente inaceitáveis emoções: insegurança, medo, felicidade ou atitudes impulsivas como dar vazão ao amor.
É um mundo muito louco, mas não precisa pensar demais para encontrar inúmeras analogias com o que vivemos hoje. Não à toa, o livro serviu de inspiração para cinema, música, mais literatura. O Iron Maiden tem álbum e música chamados Brave New World, The Strokes tem música de nome Soma. O filme Equilibrium tem forte inspiração na história, bem como faz O Demolidor, com Stallone.
Ilustração criada por Ramsey Arnaoot
Por que eu gosto de ler livros?
Eu deitada no sofá da sala, com uns sete ou oito anos, ao lado de uma caixa de som, devorando Reinações de Narizinho ou outro livro da turma do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. É sempre a cena que me vem à cabeça quando penso no início da minha paixão pelos livros. Era domingo, dia de festa, família reunida e eu curtindo do meu jeito. Lembro de, só muitas páginas depois, ter me divertido ao perceber a música alta junto de mim.

Não sei o que me motivava na época. Eu não era popular no colégio, e adorava passar recreios “alugando” livros ou vendo revistas na biblioteca. Talvez fosse poder ter um roteiro ali para inserir minhas doses de imaginação e viver as histórias.
Infelizmente, não leio com a mesma assiduidade, nem tenho a mesma concentração. Mas continuo apaixonada.
Hoje, o que eu acho mais especial é que a literatura consegue, seja lá por que meios e a que preço, me apresentar uma nova visão dos fatos. Ela é agente de um desses clichês inevitáveis da vida: que muita coisa não muda, quem muda é a gente. E às vezes basta um pensamento de um personagem, um modo diferente de ter o mesmo raciocínio. É uma palavra colocada no lugar exato que faz uma diferença enorme na forma de sentir e pensar, daí em diante.
Dia desses, estava lendo um conto do Ronaldo Correia de Brito chamado O que veio de longe. O primeiro parágrafo descreve o corpo de um homem descendo o rio depois de uma enchente. O foco do texto nem é a cheia, mas aquele parágrafo me tocou para o sofrimento que é vivenciar uma situação dessas de um jeito que dezenas de matérias sobre Santa Catarina ou Pernambuco não conseguiram. A literatura humaniza, é isso.
Esse post faz parte da blogagem coletiva proposta pelo blog Livros e Afins, nesta segunda-feira, que convocou os blogueiros para responderem a pergunta do título. E você, por que gosta?
Foto de Hilde Skjølberg



Márcia Lira. Leitora, blogueira, digital planner, jornalista, viciada em séries e em cinema, não vive sem gente.


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