Descobrindo o horror em Lovecraft
A minha leitura atual é a de um artesão do horror. Tudo bem que é aos trancos e barrancos, num intervalo aqui, meia horinha ali, mas estamos indo em frente. O livro é uma coletânea de contos chamada Horror em Red Hook, de Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), ou H.P. Lovecraft, como é mais conhecido. Uma das primeiras aquisições para o Kindle. Alguns contos depois, dá pra entender bem porque o nome do escritor norte-americano sempre é citado quando o assunto é terror.
Lovecraft faz questão de descrever bem o ambiente, todos as nuances, as luzes, as bizarrices que aparecem e as que não aparecem, e confesso que isso me travou um pouco. Total falta de costume. Até que um amigo soltou a pérola que me atingiu em cheio: Não há literatura de terror sem imersão, não é pra ler tuítando. Bingo! As coisas começaram a fluir.
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Viva às baboseiras
É engraçado, mas imagina como seria sem graça se os contos fossem assim mesmo? Ainda bem que os contos são cheios de baboseiras. Lembro bem do dia, no meio dos meus estudos literários, em que eu me dei conta do quanto é importante o miolo das histórias, pois é pelo desenrolar das situações e pelo desenvolvimento dos personagens que a gente se identifica, se comove ou mesmo muda um ponto de vista.
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Tempo Bom e o prazer em conhecer os novos
Uma das melhores coisas de ler Tempo Bom foi conhecer autores que poderiam ter passado despercebidos por mim. Fato que só aumenta o valor dessa coletânea que já nasceu cheia de dignidade. Com contos gentilmente cedidos pelos escritores e processo editorial feito na camaradagem, o livro foi lançado e vendido com renda revertida para as vítimas das enchentes em Pernambuco.
Alguns dos integrantes eu sabia que deveria conhecer, e em outros eu realmente não tinha ouvido falar. Engraçado que a coletânea conta com histórias de Xico Sá, Fernando Monteiro, Raimundo Carrero, Alberto Mussa, Marcelino Freire, mas foi mesmo nos nomes menos famosos que eu me deleitei. Sendo menos famosos, claro, um conceito muito particular, pois um deles já foi finalista na categoria “autor estreante” no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009: Rinaldo de Fernandes. Autor de vários livros, ele escreveu O Cavalo, um dos contos que mais me chamou a atenção.
Um dos motivos é a afinidade com o ponto de vista do narrador, que exerce o voyeurismo do alto de um apartamento. Eu, depois de toda uma vida de casa, há pouco passei a morar no nono andar, e tenho achado impressionante a facilidade que é observar as pessoas na rua sem elas se darem conta. O conto tem uma briga de casal com um cavalo no meio, numa dose interessante de estilo e elementos fantásticos.
Outro interessante é Ernest, do baiano Gustavo Rios. Em meio a todos os clichês de uma festa de família, um sujeito velho e amargo desfila suas insatisfações e lembranças sexuais reavivadas por um copo de whisky:
“Tinha certeza que o sol derretido, o mar distante, afinal, morava num desses conjuntos habitacionais, austeros, onde se socam famílias inteiras em caixas de concreto, de janelas minúsculas, de telhados incertos, de ruas largas com poucas árvores, pois esse lugar lhe trazia o medo de estar morto sem saber”.
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Das coisas que, uma hora ou outra, chegam
“E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso do que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.”

Trechinho do conto A cabeça de calcário, de Fernando Monteiro. Um dos textos integrantes da coletânea Tempo Bom, que é a minha leitura agora. Na sequência, tem um dos melhores contos dos últimos tempos de um autor que eu desconhecia por completo: Rinaldo de Fernandes, da Paraíba. O cavalo tem um quê de literatura fantástica. Ou não. E essa dúvida é genial.
Foto do Flickr de thebmag.






Márcia Lira. Leitora, blogueira, digital planner, jornalista, viciada em séries e em cinema, não vive sem gente.


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