Difícil escapar ao olhar íntimo de Nelson Rodrigues

Colocada na boca do monsenhor Bernardo, essa é uma das frases mais representativas do que é o romance O Casamento, de Nelson Rodrigues. É uma premissa válida, na minha opinião, para intimidade em geral, a privacidade em segundo, terceiro níveis. Imagine registrar num papel cada gesto, palavra, ou, pior ainda, todos os pensamentos – até aqueles rápidos – de um ser humano. Dificilmente alguém escaparia impune.

É mais ou menos isso que Nelson Rodrigues faz.
Os personagens não poderiam ser mais triviais: um diretor de uma imobiliária, a filha com casamento marcado, a secretária submissa, a cafetina ousada, o padre conselheiro. Mas o escritor põe ao avesso cada um desses estereótipos mostrando como se encontra obscenidade numa pessoa comum. É bisbilhotando pelo buraco da fechadura, como o próprio dramaturgo define, que ele revela preconceito, adultério, assassinato, incesto, estupro, homossexualismo, e por aí vai.

Nessa minha primeira incursão na obra de Nelson Rodrigues, entendi o estilo único sempre citado quando se faz referência ao brasileiro. É desconcertante a naturalidade com que temas como esses são abordados em O Casamento. Com a propriedade de quem conheceu de perto as mazelas humanas como repórter policial do jornal carioca A Manhã, aos13 anos, o pernambucano descreve um assassinato ou uma orgia como se falasse de uma cena ocorrida num palco teatral.
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Romã fendida
“Glorinha estava na mesa, quieta, os olhos fechados. Ele teve vontade de avançar a cabeça por entre as pernas. O sexo de um rosa vivo de romã fendida. Ali, o cabelo era de um louro, de um louro, não, de um ruivo, sim, ruivo. Por um momento, sonhou com uma posse, não uma posse consentida, mas violenta, cruel. Arrastando-a, nua, pelos cabelos. O seu desejo foi tão brutal que pensou no filho, o filho no necrotério, a cabeça enrolada e um olho aberto, parado de espanto.”
E é porque “ele” é apenas um ginecologista. Delícias de Nelson Rodrigues, em O Casamento.



Márcia Lira. Leitora, blogueira, digital planner, jornalista, viciada em séries e em cinema, não vive sem gente.


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