Seus anseios são universais

Esse post é um #ficaadica pra quem gosta de livros, blogs, citações e fotografias e mais algumas coisas. O tumblr Breathing Books é uma delícia. Pra se ter ideia, eu tive vontade de colocar todas as fotos que têm lá aqui, e aí me dei conta de que era melhor sugerir o caminho direto. Bom proveito.
No analista com Rubião
“Galateu não sabia se estava realmente enfermo, mas era fora de propósito ser obrigado a deitar-se no num divã e ouvir uma série de perguntas imbecis sobre a sua adolescência:
- Doutor, vim atrás de clínico, não de padre.
O analista se irritou com a insinuação. E, repreeensivo, assegurou que o paciente carregava dentro de si imenso lodaçal.”

Do conto Lodo, de Murilo Rubião. Quem faz ou já fez terapia, há de se identificar com o trecho. Todo mundo, em algum momento, se sente um pouco invadido.
No fim de semana, consegui acabar de ler toda a obra do autor. É tão lindo ter lido TODA a obra de alguém na vida. Só que Rubião, infelizmente, facilitou, já que toda a sua obra significa 33 contos. Ele começou a publicar na década de 40 e burilava demais seus textos, de forma que nunca estavam acabados. Imagine passar 20 anos escrevendo um conto, é o que dizem. Claro que os resultados são primorosos, cada conto é um mundo paralelo e intrigante.
Leia outros trechos de livros.
Foto: ciadefoto
Turbilhão endiabrado
“Lily dançava num ritmo saboroso e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção, erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava um mambo com ela sempre saía mal porque, como acompanhá-la sem se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes?”

Hoje é sexta-feira, é dia de dançar assim, loucamente, como se não houvesse amanhã. O trecho é do Travessuras da menina má, do Mario Vargas Llosa. Eu ainda não cheguei à metade, mas há fortes indícios de que a Lily da dança endiabrada é a menina má do título do livro. Veremos.
Foto do Cobalt
Os best-sellers de cada geração
“Se quisermos executar a mesma fórmula que nos anos 2000 deu a J.K. Rowling mais dinheiro do que ela (ou qualquer pessoa) precisaria ganhar, é necessário entender que a diferença entre vender milhões de exemplares ou apenas alguns milhares está, não na capacidade de formatar as palavras com precisão, mas de dizer aquilo que uma geração necessita ouvir/ler com urgência. Só assim justificamos a existência de outros ‘fenômenos’ do gênero.”
Não só é difícil dar vencimento na estante com livros, mas na prateleira de revistas também. Então às vezes eu vou e pego um número antigo, cujo conteúdo é atemporal. O caso do Suplemento Pernambuco nº 38. Nele, tem um texto delicioso de Flávia de Gusmão, Os zíperes abertos de uma geração, de onde tirei o trecho acima. É sobre um best-seller dos anos 70, sobre liberação sexual feminina escrito por Erica Jong: Medo de voar.

Soou pra mim bem revelador esse raciocínio do sucesso pela identificação de um grupo, pela representação de uma época. Daí eu me perdôo um pouco mais por ter passado tanto tempo na adolescência enchendo meus ouvidos de pagode, e fico mais atenta pra o porquê de minha irmã ter lido duas vezes cada livro da saga Crepúsculo ou gostar de artistas como Luan Santana.
Foto: Helga Weber
Bloqueio criativo
“Movia-me, desinquieto, na cadeira, olhando com impotência as brancas folhas de papel, nas quais rabiscara umas poucas linhas desconexas. (…) Para vencer a esterilidade, arremeti-me sobre o papel, disposto a escrever uma história, mesmo que fosse a mais caótica e absurda. Entretanto, o desespero só fez crescer a dificuldade de expressar-me. Quando as frases vinham fáceis e enchia numerosas lauas, logo descobria que faltara o assunto. Escrevera a esmo.”
Que fique bem longe de mim. Trecho do conto Marina, a intangível, de Murilo Rubião, mais um de A Casa do Girassol Vermelho.
Rubião, disposição e girassóis
“O entusiasmo era contagiante. Febril. Uma alegria física inundava as faces que até a véspera permaneciam ressentidas. O que veio antes e depois ficará para mais tarde. Mas o que importa, se naquela manhã a alegria era desbragada!”

Para começar a semana, o início do conto A Casa do Girassol Vermelho, de Murilo Rubião. Está num livro de mesmo nome, com contos do mineiro que viveu entre 1916 e 1991. Numa dessas injustiças da vida, custou a ter a obra reconhecida. Uma bibliografia de 33 contos, tímida no número, porém valiosa no conteúdo.
Hoje, ele é reconhecido como um dos precursores da literatura fantástica no Brasil. Gênero que vou estudar, a partir dele, para a pós-graduação. Portanto, devo falar muito de Rubião por aqui ainda. De antemão, digo que vale a pena demais conhecer. Tem um site www.murilorubiao.com.br e aqui dá pra ler um conto.
Foto de Bernat Casero
Quatro batidas secas
“Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça”.

Tirei do bloquinho, relembrando algumas poucas partes que gostei de O Estrangeiro, de Albert Camus. De modo geral, não curti o livro.
Foto de Jose Maria Cuellar.
Só um pouquinho de Fernando Pessoa
Hoje (ainda) é Dia da Poesia! O mundo seria certamente muito mais horroroso se não existissem os poetas e suas lamúrias ou encantamentos em versos. Embora reconheça isso, eu não sou uma grande leitora de poesia. Mas eis que para não passar em branco, eu corri ali na prateleira e abri aleatoriamente um livro de um poeta dos poucos da minha vida, Fernando Pessoa, e catei uns versos. Gostei do que veio, um pedacinho de Ode Marítima:
“E eu, que amo a civilização moderna, eu que beijo com a alma as máquinas,
Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro.
Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares!”

Para ilustrar, cena do clássico dos clássicos, Tempos Modernos, com Charles Chaplin.




Márcia Lira. Leitora, blogueira, digital planner, jornalista, viciada em séries e em cinema, não vive sem gente.


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